31/07/2010

Em cena a temida solidão!

As músicas do Zeca Baleiro sempre me encantaram muito! Gosto da sua sensibilidade para perceber o mundo e fazer disso uma poesia cantada. Uma música em especial andou chamando minha atenção: Telegrama. Nela o protagonista revela uma solidão dramática, novelesca, que imediatamente é interrompida por um telegrama de alguém declarando o seu amor. Não há promessas de voltar, nem nenhum tipo de explicação ou justificativa. A mensagem que o deixa em êxtase diz apenas que ele é amado! O divisor de águas é a indescritível sensação de pertencer ou estar vinculado a alguém, ou seja, de não estar só.

Acho incrível esta nossa necessidade de vinculação! Ela é tão primitiva quanto vital... Mas quando desvirtuada de sua característica essencial, tornando-se um meio de evitar a solidão, pode se transformar num processo automático que interfere nas escolhas, no bem estar e na forma de ver e desejar o outro. Nestes casos, estar vinculado gera tanta satisfação que chega a mascarar a importância de outros afetos e comportamentos dentro de uma relação. Para o sustento desta o que mais contribui é a gratidão por não estar só, assim como o prazer quase egoísta de ter alguém para chamar de seu (namorada, amigo, parceiro...) e usufruir da condição de ser amado, mesmo quando efetivamente não é.

Muitos, no entanto, tiveram a sorte de serem saciados por uma família acolhedora, afetiva e atenta aos desejos individuais de pais e filhos. Uma dádiva que, além de colaborar no desenvolvimento do amor saudável ao outro e a si próprio, também diminui o grito da carência que quer o amparo de alguém.

Aqueles que não tiveram, podem ainda, quando conscientes de sua situação, procurar desenvolver características ou efetuar escolhas que alimentem o amor próprio e a autoestima, enxergando o outro não como a fonte inesgotável de atenção e carinho, mas como alguém diferente com quem se pode trocar.

Dar-se conta desta possibilidade e romper o pacto silencioso com o medo da solidão certamente não é fácil e nem imediatamente agradável. Frustrações e tristezas ficarão mais evidentes quando estiver só, em contato consigo mesmo. Ao mesmo tempo, estando só, será possível conhecer um pouco mais de si e aprender sobre os meios de desenvolver orgulho, admiração, segurança, prazer e felicidade, além de compreender que é impossível experimentar a sensação de completude.

Faz bem alimentar os vínculos saudáveis, mas eles só serão realmente saudáveis quando ficar entendido que a solidão é também uma condição da existência humana e que é através dela que duas pessoas se unem para dar e receber afetos, construindo um caminho com as pedras que cada um traz de sua vida. Sem uma certa dose de solidão, não há relação.
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06/06/2010

Para além da decisão

Não há como fugir... Estou a 5 centímetros do final do trampolim, visada pelos meus pais e irmãos que esperam o grande momento em que poderei provar a todos que superei o medo e irei desfrutar de salto na piscina que fez parte de toda a minha infância. Olho para a piscina e sei que ela pode receber uma adolescente magrinha depois deste salto. Olho para meus expectadores e sei que eles sabem que posso pular sem me machucar. Mas quando olho para mim, vejo que o medo ainda existe. E não é da piscina, nem de afogamento. Talvez seja do pulo, da emoção, da superação... Não sei, mas incrivelmente depois de toda a adrenalina que antecede o salto, decido voltar, de costas, à base do trampolim. Centímetro a centímetro meus pés vão se movendo e equilibrando na busca da sensação de conforto e segurança. Agora posso voltar a respirar! O susto passou! Desço aliviada pela escada e encerro, neste momento, toda e qualquer tentativa semelhante pelo resto da vida.

Se pular de um trampolim depois de meses de treino pode ser uma decisão difícil, imagina o turbilhão que acontece dentro de uma pessoa quando se dá conta de que quer ou deve finalizar uma relação longa na qual o amor e o respeito acabaram faz tempo? É o mesmo mal estar que alguns sentem ao decidir sair de um emprego bem remunerado e buscar outro que proporcione o encontro com a satisfação e o prazer. Muitos outros exemplos de decisões podem ser dados e variam conforme o grau de importância que têm para cada pessoa: viajar para outro país em busca da liberdade e da identidade que em casa foram negadas, assumir para si e para os outros a escolha sexual, libertando-se das farsas e mentiras que tanto incomodavam etc.

Decidir não é fácil, pois envolve perda, abrir mão de uma situação já conhecida e confortável, medo do arrependimento e insegurança quanto ao futuro. Além do mais para decidir é preciso ter uma dose de audácia e coragem diante do desconhecido, exigindo muita disposição para o recomeço.

Mesmo depois de uma decisão ter sido tomada, há uma distância significativa que a separa de sua efetivação. Quantos já se viram paralisados diante dos 5 minutos que antecedem a concretização de uma decisão que, aparentemente, reflete o que mais deseja ou precisa? Mais complicado ainda é para aqueles que vêem a paralisia repetir-se a cada tentativa de dar o primeiro passo. De forma crônica e apavorante, esta pessoa percebe-se presa a uma situação desconfortável e não consegue mobilizar energia suficiente para reverter o quadro.

Nestes casos é necessário investigar o que está impedindo a materialização de uma decisão (sentimentos, engessamentos, fantasias), assim como reavaliar a própria decisão: o que ela representa na vida da pessoa, quais influências ela sofre, em que situação ela foi tomada, ela responde ao desejo e à necessidade de quem etc. Lançar um olhar profundo sobre a decisão e o processo que acontece ao redor dela ajudará no esclarecimento de muitas questões que estão ocultas, proporcionando o autoconhecimento que levará a pessoa a apropriar-se dos seus mais autênticos desejos e escolhas.

22/04/2010

Por dentro da escolha profissional

Um jovem prestes a fazer a sua escolha profissional chega ao consultório de Psicologia cheio de inquietações, buscando a orientação profissional a fim de clarear as idéias e identificar em qual profissão poderá ter um maior ganho financeiro. É isto mesmo! Ele não procura conhecer sua vocação, como alguns, nem seu foco de interesse, como outros. Muito menos questiona em qual área poderá aplicar suas habilidades. Sua atenção está voltada para conhecer uma profissão que, depois de escolhida, lhe “presenteie” com o retorno financeiro que permita adquirir carro de luxo, roupas de marca, viagens caras, etc.

Este fato narra somente um recorte do desejo de alguns jovens: “ser rico” e conseguir isso através da escolha acertada da profissão. Quantas fantasias permeiam esta idéia! Primeiro porque apenas a escolha não garante um salário alto. É preciso dedicar-se, aperfeiçoar-se e batalhar por um lugar ao sol neste concorrido mundo do trabalho.

Para TER algo, muito mais do que seguir uma indicação divina ou um conselho de um orientador profissional, é preciso FAZER por onde adquiri-lo. E este fazer não acontece no ato de concluir a faculdade ou de arrumar o primeiro emprego. Aquilo que eu faço, do jeito que eu faço, com o prazer que sinto ao fazê-lo, pode trazer um determinado retorno financeiro, que eu ainda preciso saber manter e desenvolver.

Uma escolha profissional permeada exclusivamente pelo TER certamente encontrará muitas dificuldades ao ser levada à sua aplicação, pois no seu planejamento não foram consideradas as outras variantes que tratam da pessoa que escolhe: do que gosta, o que sabe fazer melhor, onde quer empregar seu tempo, de que forma deseja conciliar carreira e vida pessoal, como se sente realizada e produtiva etc. Assim, avaliar o SER (aquilo que sou hoje e quero ser no futuro) e considerá-lo no momento da escolha é imprescindível para que o TER possa, posteriormente, existir. Quanto mais o autoconhecimento for trabalhado no processo de orientação profissional, maiores são as chances da escolha ser assertiva.

Um escolha bem feita é o primeiro passo para que, futuramente, a pessoa encontre satisfação e reconhecimento em seu ofício, o que gera a motivação para FAZER mais e melhor e, consequentemente, para conquistar o tão desejado direito de TER.

19/04/2010

Terapia: a busca pelo autoconhecimento

Diversas vezes fui questionada sobre a informação de que todo mundo precisa de psicoterapia. Eu discordo. Como psicóloga, não posso concordar com uma idéia tão generalista e simplista. Mas também não posso negar que um número cada vez maior de pessoas vem apresentando demanda psicoterapêutica - e isso, em parte, deve-se à popularidade que a psicoterapia e os transtornos ditos emocionais vêm adquirindo, perdendo, felizmente, o estigma de doença mental.

Na minha experiência como psicóloga clínica, sou levada ao encontro de diversas pessoas que apresentam as mais diferentes demandas. A maioria, entretanto, anseia por alguma mudança que ainda não consegue concretizar sozinha ou mesmo não identifica.

Dividir o compromisso desta viagem rumo ao seu íntimo com o psicoterapeuta, creditando a ele o papel de especialista, dá ao paciente a segurança e o conforto tão necessários para iniciar esta jornada muitas vezes gratificante, mas intercalada por situações difíceis e desafiadoras.

Quando a busca por respostas para viver e superar uma situação de crise, desconforto, insegurança, recomeço, luto, tomada de decisão etc. chega às mãos de um psicoterapeuta, encontra um olhar e uma escuta diferenciados, preparados para acolher, guiar e acompanhar numa estrada escura e desconhecida chamada autoconhecimento.

O psicoterapeuta é quem inicialmente carrega a lanterna que clareia as encruzilhadas, os bichos estranhos e as belas paisagens que esta estrada possui. No entanto, à medida que o paciente adapta a sua visão e a sua aceitação a este seu mundo nunca antes vasculhado, ao mesmo tempo em que identifica e efetiva as mudanças que trarão a sua saúde psíquica e emocional, torna-se capacitado, gradativamente, para manusear a lanterna, mas ainda sem prescindir da companhia do especialista.

Para quem se interessa em entrar num processo de psicoterapia, é importante saber que o bom andamento do tratamento depende, entre outros fatores, da parceria de confiança e honestidade que se estabelece entre paciente e psicoterapeuta, assim como do compromisso do paciente em apropriar-se do seu processo de mudança e cura.